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Cinema

Natal Amargo, de Almodóvar, e o morno prazer de querer mais

Por vizyons
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Ele fez de novo. Tem algo muito particular na escrita e direção de Pedro Almodóvar que consegue capturar momentos da complexidade feminina. Não foi diferente em Natal Amargo, filme que foi exibido em Cannes na última semana e estreia nos cinemas brasileiros no próximo dia 28 de maio. A produção intriga, emociona mas, no fim, não esquenta. Talvez propositalmente.

Almodóvar escolhe fazer em Natal Amargo uma jornada autorreferencial e usa dos personagens Raúl, uma figura de si mesmo, e Elsa, personagem de Raúl, para discutir sobre os limites da ficção, realidade e autoficção.

No longa, acompanhamos dois escritores e cineastas, separados por duas décadas, tentando voltar ao ofício. Criador e criação, Raúl (Leonardo Sbaraglia) vê na sua personagem Elsa (Bárbara Lennie), uma forma de explorar sentimentos não resolvidos sobre si. 

No primeiro ato do filme o telespectador é convidado a mergulhar num certo mistério. Não uma comum onde alguém assassina alguém, pelo contrário, a revelação buscada é quem deu à luz a quem. Apesar da indagação que acompanha boa parte da trama, o filme é, ao meu ver, morno e, quando a verdade é primeiro revelada, nada muito interessante acontece até os últimos 10 minutos.

É, por outro lado, revigorante ver o quanto de Almodóvar podemos ver em seus personagens. Tanto pela sua óbvia figura, representada pelo diretor bem sucedido e que não lança nada impactante há alguns anos, quanto seu impostor interior – ou até sua consciência – retratada em Mónica, a assistente que o faz encarar as verdades duras.

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Quanto a criação, Elsa, aparece como um ponto conflitante. Por um lado, acredito que a personagem carrega uma complexidade em si que encapsula o sentimento do filme. Ela é ao mesmo tempo entediante e intrigante, ao passo que também se coloca como vítima e salvador.

Mas acredito que o que mais divide minha opinião é que, apesar de seu estilo de atuação ser mais parecido com o estadunidense, deixando de lado o camp natural espanhol, não ser muito o que esperava da produção, ele também pode ser o motivo do meu apego até os últimos minutos na personagem, acredito que pela familiaridade que isso causa.

Talvez por ser tão assistido na vida real, Raúl – e por associação, Almodóvar – necessite tanto criar personagens à beira de um colapso. Seja a amiga traída ou a namorada em luto, o diretor-personagem se recusa conscientemente a revelar sua vulnerabilidade para além do que já foi exposto. Até no fim do filme quando a trama é alterada, ao invés de falar um pouco mais de si Raúl decide mudar de personagem inteiramente. Por outro lado, se admitimos que Raúl é de fato Almodóvar, conhecemos bem mais dele mesmo sem o personagem não perceber.

No mais, acho corajoso terminar o filme onde terminou, com um gosto amargo na boca de querer assistir mais e ao mesmo tempo saber que a nova história para o telespectador talvez fique apenas na espera.

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